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Quero entrar em coma, por pelo menos um mês. Será cura ou placebo. A doença grave, parece, é a única princesa capaz de me alforriar. Libertar, veja bem, não meu atos, mas meus desejos. Só uma situação extrema pode, hoje, tornar aceitável (como fosse uma concessão) o meu querer. E o que ele é? Não sei. O que eu quero me ficou tão interno que nem a mim permite saber.

Passar por um coma e acordar é como ganhar um indulto da vida. Será “plausível” uma mudança completa, uma viagem à selva para ficar, uma conversão a qualquer absurdo. E não é um absurdo a quantidade de atos considerados absurdos fora dessa situação? Pois bem, depois da longa noite de sono, acordarei para tratar do meu querer. E quando descobrir o que é isso, Tiago? Não sei. Talvez outro coma de meses para agir, ou um eterno após desistir. Da doença mais grave, em que vivemos todos os dias, talvez nem um rei consiga alforriar.

Quero fracassar

Tem uma britadeira embaixo da janela do meu quarto. Ela fura, no momento em que escrevo, o estacionamento atrás do prédio – está desde as 7h procurando petróleo ou tentando bater algum recorde do Guinness.

Certo é que, mesmo sem o funcionário da Paulipetro ali atrás, a minha letra de forma já andava tremida. Os dois leitores do meu blog devem ter percebido: faz tempo, os calos fracos de cavaquinho pararam de pousar sobre este teclado – ao menos não escrevem algo que não seja de trabalho. Pois bem, venho quebrar o jejum com um texto sobre… trabalho.

A verdade, caros (ou apenas “caro”? É preciso refletir… se ninguém lê isto, significa que falo com meu alterego, simplesmente por retórica? Aliás, existe alterego, ou isso é viadagem lítero-psicanalítica?), é que me perdi no texto. Ah, sim, a verdade é que, faz um tempo, quero fracassar. Não aguento mais o barulho de concreto furado martelando a minha cabeça. Tem que dar certo, Tiago, tem que dar. Mesmo que o certo seja fazer bem feito algo que nunca escolhi pra mim? Tem que dar certo, Tiago, tem que dar.

Meus caminhos já estão despedaçando com esse bate-estaca. Por que tem que dar? Por que é preciso ser bem-sucedido em tudo, principalmente nas alternativas que pulamos no teste vocacional? E lá vem o tio Valter de Itatiba, leitor pragmático do Ao Caos, com resposta seca. Tiago, você não pode escolher quais oportunidades vão aparecer, mas só pode fazer opção entre as que aparecem e se esforçar para fazer o melhor; sem idealismo boboca, né. Olha, tio Valter, já li muito Durkheim pra acreditar na autodeterminação do sujeito, mas me recuso – ainda –a receber o meu mundo pronto, não “é somente requentar e usar”.

E, neste ponto, quero mesmo fracassar. Talvez seja a única saída. A obrigação (se a criei não sei) de confirmar nos outros a impressão que têm da minha eficiência em qualquer coisa tornou-se tão grande que já quase supera a minha expectativa de fazer algo no qual acredito. Falhar, aqui, é a revolução. O fracasso naquilo que não gostamos é libertador, nos retira a necessidade de sermos bons no que não queremos. Algum dos meus dois leitores sabe dizer quando nos tornamos reféns do gozo do outro (tão reféns que esse gozo parece nosso)? Espero uma luz enquanto minhas ideias ainda tremem ao olhar para as janelas que se abrem.

Síndrome de F5

Não preciso rever sempre o saldo pela web – ninguém vai depositar dinheiro por engano na minha conta antes do dia do pagamento. Mas faço. Quase não mando mensagens pelo orkut e recebo, no máximo, uma por semana; mas entrei três vezes hoje para ver o que tinha mudado. Sou avisado pelo email se alguém, numa grande falta do que fazer, entra neste blog e posta comentário. Vontade de checar as estatísticas aparece mesmo assim. Email, aliás, é paranóia a parte – e olha que ainda não me rendi aos smartphones.

Afora os exageros (não sou sempre assim), a internet se presta a dar milhares de possibilidades de fazer o que não preciso. Ai, deus… e lá vem os paladinos do chavão com o “não é a tecnologia, Tiago, é o uso que se faz dela…”. Pinto pra vocês. É óbvio que existem formas geniais de se usar a rede, mas não é disso que se trata. Da mesma forma que a invenção do carro transformou o “adeus” das viagens da minha Itatiba até São Paulo num “até logo”, a web opera transformações na forma como nos relacionamos com o mundo e mesmo com os nossos sentimentos (“opera?” pois é, a pós-graduação faz isto com texto da gente…).

Detesto fazer – e devo arder no fogo do inferno por isso –, mas vou citar a revista Veja (argh, que desnecessário!). A matéria nem era bem feita, as usual, mas contava que para cada quatro minutos na rede, os brasileiros dedicam um a atualizar seu perfil e bisbilhotar o dos amigos. Multiplique-se por 40 horas conectados por mês (Ibope) e voilá: não sou o único descompensado.

Não sei quanto é a internet, quanto é uma loucura coletiva, mas parece que as coisas caminham para um imediatismo angustiante. Por que o email não foi respondido naquele instante? Quantas “retuitadas” eu recebi? Perae, mas e agora? Meu perfil já foi acessado quantas vezes? Será que a resposta dela não vai chegar?, deixa dar um F5. A possibilidade de ter tudo imediatamente vira necessidade. Só que essa necessidade nunca vai ser plenamente satisfeita, o que cria um desconforto quase insuportável – as parciais imediatas a que tenho acesso não passam de prazer compensatório, gozo pela metade. Estou certo disso, mas deixa atualizar a página pra ver se algum comentário já me faz mudar de ideia.

Lembro como fosse o porre do fim de semana, mas foi no começo de 2002, época em que a ressaca inexistia. O Fofinha – grande amigo ao ponto de dividir o apartamento comigo, mas na época apenas um conhecido – me contou casual. Tiago, tô gostando de estudar perfil, acho que devo fazer uma optativa voltada a isso pra frente.

Discordei polido, mas, internamente, zombei da enorme bobagem. Interessavam-me as grandes questões, o neoliberalismo como farsa, a derrocada do Estado de Bem-Estar Social, Weber, Marx, frankfurtianices. Gastar meu tempo e trabalhosas linhas sobre a trajetória de uma pessoa era de uma inutilidade gigante. Não mudaria para alguém saber mais sobre a vida de um artista, um político ou uma pessoa comum; isso, definitivamente, estava no plano da fofoca, fait divers.

A impressão de que deveria estudar também Ciências Sociais me acompanhou durante o curso de jornalismo; a discordância com o Fofinha, não. Caiu logo que fui, meses depois, entrevistar o rapper Sabotage, na favela do Boqueirão. A entrevista estava marcada para ser feita no Cingapura ali em frente, no que o Maluf convencionou chamar de prédio. Como ninguém respondia no apartamento indicado, perguntei pelo nome a uma roda de sobrancelhas franzidas. Tu que é o jornalista? Vem, e logo. Segui o desconhecido para fora do Cingapura e depois para dentro, bem dentro, da favela. Branquelo, cabelo castanho escuro (o suficiente pra ser chamado de alemão), a roupa mais rasgada que tinha e a câmera mais cara da redação (era a única, também, não vamos fazer disto um épico). O meu marxismo zona oeste tremia as pernas: não era o combinado.

A favela não era das piores – mas como era a primeira que o tonto de 20 anos entrava, parecia que pisava escombros de guerra. Todos me estranhavam, olhavam, riam. Ao contrário do amigo desconhecido, o Sabotage não me esperava. Acordou, desajeitou o cabelo, e, por fim, lembrou do combinado. O maior baseado que já vi na vida entrava e saia da boca dele, brilhando como se ele assoprasse – era o “pra começar o dia”. Do lado de fora de um barraco sem janela, só quarto e cozinha, falou de música, presídio, poesia, crime e tráfico. Comentou que éramos observados, metade pra me botar pavor, metade falando a verdade. Caminhamos pelas vielas; ele apontava traficante, trabalhador, bandido, avião, velho jogando dominó e moleque vendendo bala. Todos o cumprimentavam. Gostava de fazer pose para a minha máquina fotográfica mal operada.

Os detalhes da mãe e irmãos que viu morrer, do inferno dentro da prisão, do percurso até se tornar o grande artista que era, das maldades que disse ter cometido e de como achava que não se podia sair do crime sem dar satisfação aos chefões não preciso contar, ficaram na matéria da MusicAll. Findou a conversa de horas confessando que marcou a entrevista na favela (como disse, ele tinha marcado no Cingapura, mas não lembrava) pensando que eu não iria. Elogiou a coragem – que não tive – de conhecer onde ele vivia, mesmo sendo uma área perigosa pra quem vem de fora. No fim, achou “mil grau” e esperava que o jornalista playboy tivesse aprendido algo de como as coisas funcionam do lado de lá. Era pra eu ver bem o que iria publicar. Na despedida, inventei que ia para mesma direção – não queria sair daquele pedaço no bairro da Saúde desacompanhado.

A entrevista marcou o que eu quero dali pra frente. Não que materialismo histórico, indústria cultural, teoria crítica e as estatísticas fossem ficar de lado – pelo contrário. Ao entrar na favela e acompanhar o rapper, as grandes questões ganharam nome, sentido, emoção. Percebi que a trajetória pessoal pode contar, mais perto do ouvido, o que números e teoria, sozinhos, não dão conta. Quando os números juntam-se à boa apuração, o resultado tende a ser bom – exceção feita ao jornalismo que apenas usa pessoas como personagens para exemplificar os dados. O meu norte (quiçá poder alcançar de novo) é a contramão. As grandes histórias partindo das pessoas – os dados que sirvam para entender os humanos, e não o oposto. O resto – estatística, teoria e bagagem cultural –, eu que me vire para adquirir cada vez mais; há de servir para melhorar os meus perfis.

Não fosse pela louça suja que se acumula sobre a pia, o Fofinha estaria orgulhoso.

O Inferno e os outros

Cinco e meia, as primeiras luzes da manhã vêm da tela do computador. Formalmente, começaria a dar a minha libra de carne a uma da tarde. Formalidades…  Não que o despertador premeditasse o breque neste momento, mas uma ansiedade invadiu os sonhos, fez cessar a elaboração e instaurou uma vigília pouco esperta: se nem tanto da mente, muito menos do corpo.

Veias tesas, sangue acelerado, coração cansado. Um compasso de semicírculos desritmados que, aparentemente, nunca resultará redondo. Se a volta não será completa, escrevo de indas e vindas, lidas e relidas, partes sem todo. Entregue à pena de ter pena de mim.

Um estrondo na porta desperta meu semi-delírio de olhos abertos. Meu parceiro de apartamento chegou, vai ao banho e voltará para a produtora, onde deve continuar o trabalho da madrugada. Um prazer egoísta relaxa a minha circulação: o Inferno é sempre pior quando solitário. Sim, é droga compensatória para um toxicômano, mas obrigado, Fofinha.

És verde ainda

Erros são meus.
Berros são seus.
Dor é minha.
Medo é Deus;
A cor da caminha.
É verde, Tiago,
Ainda.

Um ano

Para quem, compreensivelmente, não entendeu nada do sábado passado. Isso foi o que tentei dizer:

Tem um ano que vim pra cá, fugido. Fugido mesmo, não cabia no espaço da Rua Aimberê, onde cresci e bati com a cabeça no teto. Vim para este apartamento menor, e limites se ampliaram. Cresceram na medida em que reaprendi a só ser, com alguém que pensa como eu. Pensei que dividir isso com um grande amigo fosse azedar. Não era mais só questão de desgostar, culpar a vida por ter nascido parente, e praguejar cuspindo. Agora, a escolha minha, é preciso entender.

Entendi quando eu queria dormir e a sala estava cheia. E também tenho certeza que o Fofinha entendeu quando seu sono foi embalado pelo descompasso das batidas de tantã do Pajé – uma pena, a vizinha não teve a mesma sensibilidade.  Mas o fato dele deixar a comida fora da geladeira estragando e de a minha louça não passar por uma pré-lavagem (e às vezes nem pós) não parecem ter desafinado o samba. Aqui sempre foi lugar de encontros ritmados, dessa nossa arte, embora o oposto ainda prevaleça, diria Vina.

De pequenos motes que, ao chegar do trabalho, viraram discussões de duas da manhã até nossas longas digressões, fins e recomeços de namoro. Como é bom uma cerveja à espera na geladeira e um parceiro em quem derrubá-la. É natural, com o tempo a gente fica com um pouco de preguiça de erguer brinde. Para duas pessoas que sabem prolongar os goles, passa. Tem sempre uma cachaça e vários cachaceiros pra socorrer.

Por vezes, vocês nos socorreram do fardo cotidiano recém-adulto. Nesta sala encontrei alguns para, no meio da semana, explorar as bordas da nossa loucura. O tatame duro já foi cama para a moleza ébria de alguns. O quartinho, que hoje se propõe um escritório, ainda não perdeu a vocação de abrigar bêbados em fim de noite. E que bom. Que bom que a luz indireta na sala venha dessas velas que acendemos há muito. Afinal, o que dá cor à nossa parede laranja são vocês, amigos. A porta, quebrada ou não, sempre estará aberta. Sejam sempre bem-vindos.

Para Lennon e Jirau

Se tivesse um Deus pra orar, rezaria. A frase me vem assim, descarada, num momento de grande desejo. Eu que, desde muito, zombo de religião, pelo menos dessa religião de lembrar na hora do aperto. À vera, tenho um Deus, mas não rezo. Faz parte do meu combinado, de não ser igual a eles. Estranho combinado; para escapar da liturgia em que cresci tornei-me fiel à moral. Ora, por que a coerência? Saí do catolicismo, mas ele permanece em mim.

À parte com os apartes, cresce uma vontade. Dessas iguais a quando o cavaquinho me arregalou, quando o jornalismo me chamou e quando a mulher da vida sorriu de canto de lábio (antes de me tratar feito lixo reciclável, é claro). Esta vontade, frágil, também pode ser esmagada amanhã. O fato é que quero pedir a uma força mágica ­– e não vou, obviamente. O querer diz quase nada, não acredito na força de vontade, no self-made-man. Mas mostra, Lennon, que ele, por aqui, não acabou. E que vou continuar dormindo no sleeping bag, mesmo com as dores nas costas. Oxalá.

God is a concept,
By which we measure
Our pain

God (dream is over) – Lennon

Última das velharias do blog. Vai em homenagem aos amigos Carioca, Mello, Fofinha e Leozito:

A fumaça de skank mistura-se ao denso e frio fog londrino. Já não consigo mais respirar fundo sem um torpor suave. Já não consigo mais dar um trago sem um gelado por dentro. Para onde esse ar glacial me leva e até quando solto baforadas para ver menos nublado são questoes que não mais atormentam a minha mente ébria. Num inverno nunca visto encontro cenas conhecidas. Estão vocês ali, conversando. Soltando fumaça quente no ar gelado. Falando de música, discutindo a vida, deixando um silêncio que ouve as batidas do coração; xingando-se, de tanto que se gostam. E haja xingamento. Um abraço bêbado aquece e deixa uma ponta da sinceridade não alcançada na sobriedade. Fumamos a ponta. A vitrola roda um disco do Caetano.

“I just happen to be here, and it’s ok/ Green grass, blue eyes, grey sky/ God bless silent pain and happiness/I came around to say yes, and I say/ While my eyes go looking for flying saucers in the sky…”

Debaixo do céu noturno que se abre vez belo entre nuvens, a gente canta, ri e pensa com o peito. No meio desta bagunca velha-conhecida, ela também observa quieta, paciente, pronta para abrir-se. Alguns argumentariam uma falta de necessidade da sua presença neste ambiente gelado. Não a gente. Sentimos a importância indisputável, irrevogável, de tê-la conosco. Na sua companhia, o frio mais seguro, mais agradável, mais nosso. Viraremos outra noite cantando a vida em versos que não se sabe mais se dos discos, de tanto que nos pertencem. Ela abre um sorriso novamente e traz um desvelar do nosso lirismo que, grato, ergue um brinde em sua homenagem. Viva a geladeira azul!

Mal dito (junho de 2004)

Outra que vem da “digitalização” dos meus arquivos (do pouco que sobrou deles, já que perdi a maior parte). Rá, parece que minha sorte com mulheres não estava muito diferente na época:

Mal Dito

Ninguém nunca me diz tudo que quero saber
Ninguém de fato fala (e se entrega), na sinceridade.
E quando, diferentemente, o coração de alguém a mim, finalmente, não cala,
O coração mente,
A mente não é o coração,
Apenas espasmo indiferente,
Momentânea empolgação,
Mentira inconseqüente.

Mal-resolvidas, torno-me descrente,
Mal-resolvido, carente de sentimentos reais.
Os que são verdadeiros (permitam que neles acredite) não se tornam evidentes.
Há sempre uma vergonha no éter da minha-dos-outros- verdade.
Um esconder descompassado, um não dito ao meu saber;
Uma desvontade de dizer,
Um ao-contrário do meu ser.

Algumas gostam de alimentar-me de ilusões.
Muito fácil.
Não precisam, de fato, prender-se em meus grilhões.
(É possível que tenham medo de perder a chave)
Poucas jogam honestidades sortidas.
Muitas(,) falsidades perdidas- e que me perdem.
Nenhuma entrega despida.
Quem tem a dizer esconde (às vezes nem tudo)
Quem não, responde bem mais de modo astuto,
Conversa descabida…

E num dito mal-dito segue a vida.

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