Lembro como fosse o porre do fim de semana, mas foi no começo de 2002, época em que a ressaca inexistia. O Fofinha – grande amigo ao ponto de dividir o apartamento comigo, mas na época apenas um conhecido – me contou casual. Tiago, tô gostando de estudar perfil, acho que devo fazer uma optativa voltada a isso pra frente.
Discordei polido, mas, internamente, zombei da enorme bobagem. Interessavam-me as grandes questões, o neoliberalismo como farsa, a derrocada do Estado de Bem-Estar Social, Weber, Marx, frankfurtianices. Gastar meu tempo e trabalhosas linhas sobre a trajetória de uma pessoa era de uma inutilidade gigante. Não mudaria para alguém saber mais sobre a vida de um artista, um político ou uma pessoa comum; isso, definitivamente, estava no plano da fofoca, fait divers.
A impressão de que deveria estudar também Ciências Sociais me acompanhou durante o curso de jornalismo; a discordância com o Fofinha, não. Caiu logo que fui, meses depois, entrevistar o rapper Sabotage, na favela do Boqueirão. A entrevista estava marcada para ser feita no Cingapura ali em frente, no que o Maluf convencionou chamar de prédio. Como ninguém respondia no apartamento indicado, perguntei pelo nome a uma roda de sobrancelhas franzidas. Tu que é o jornalista? Vem, e logo. Segui o desconhecido para fora do Cingapura e depois para dentro, bem dentro, da favela. Branquelo, cabelo castanho escuro (o suficiente pra ser chamado de alemão), a roupa mais rasgada que tinha e a câmera mais cara da redação (era a única, também, não vamos fazer disto um épico). O meu marxismo zona oeste tremia as pernas: não era o combinado.
A favela não era das piores – mas como era a primeira que o tonto de 20 anos entrava, parecia que pisava escombros de guerra. Todos me estranhavam, olhavam, riam. Ao contrário do amigo desconhecido, o Sabotage não me esperava. Acordou, desajeitou o cabelo, e, por fim, lembrou do combinado. O maior baseado que já vi na vida entrava e saia da boca dele, brilhando como se ele assoprasse – era o “pra começar o dia”. Do lado de fora de um barraco sem janela, só quarto e cozinha, falou de música, presídio, poesia, crime e tráfico. Comentou que éramos observados, metade pra me botar pavor, metade falando a verdade. Caminhamos pelas vielas; ele apontava traficante, trabalhador, bandido, avião, velho jogando dominó e moleque vendendo bala. Todos o cumprimentavam. Gostava de fazer pose para a minha máquina fotográfica mal operada.
Os detalhes da mãe e irmãos que viu morrer, do inferno dentro da prisão, do percurso até se tornar o grande artista que era, das maldades que disse ter cometido e de como achava que não se podia sair do crime sem dar satisfação aos chefões não preciso contar, ficaram na matéria da MusicAll. Findou a conversa de horas confessando que marcou a entrevista na favela (como disse, ele tinha marcado no Cingapura, mas não lembrava) pensando que eu não iria. Elogiou a coragem – que não tive – de conhecer onde ele vivia, mesmo sendo uma área perigosa pra quem vem de fora. No fim, achou “mil grau” e esperava que o jornalista playboy tivesse aprendido algo de como as coisas funcionam do lado de lá. Era pra eu ver bem o que iria publicar. Na despedida, inventei que ia para mesma direção – não queria sair daquele pedaço no bairro da Saúde desacompanhado.
A entrevista marcou o que eu quero dali pra frente. Não que materialismo histórico, indústria cultural, teoria crítica e as estatísticas fossem ficar de lado – pelo contrário. Ao entrar na favela e acompanhar o rapper, as grandes questões ganharam nome, sentido, emoção. Percebi que a trajetória pessoal pode contar, mais perto do ouvido, o que números e teoria, sozinhos, não dão conta. Quando os números juntam-se à boa apuração, o resultado tende a ser bom – exceção feita ao jornalismo que apenas usa pessoas como personagens para exemplificar os dados. O meu norte (quiçá poder alcançar de novo) é a contramão. As grandes histórias partindo das pessoas – os dados que sirvam para entender os humanos, e não o oposto. O resto – estatística, teoria e bagagem cultural –, eu que me vire para adquirir cada vez mais; há de servir para melhorar os meus perfis.
Não fosse pela louça suja que se acumula sobre a pia, o Fofinha estaria orgulhoso.