Tem uma britadeira embaixo da janela do meu quarto. Ela fura, no momento em que escrevo, o estacionamento atrás do prédio – está desde as 7h procurando petróleo ou tentando bater algum recorde do Guinness.
Certo é que, mesmo sem o funcionário da Paulipetro ali atrás, a minha letra de forma já andava tremida. Os dois leitores do meu blog devem ter percebido: faz tempo, os calos fracos de cavaquinho pararam de pousar sobre este teclado – ao menos não escrevem algo que não seja de trabalho. Pois bem, venho quebrar o jejum com um texto sobre… trabalho.
A verdade, caros (ou apenas “caro”? É preciso refletir… se ninguém lê isto, significa que falo com meu alterego, simplesmente por retórica? Aliás, existe alterego, ou isso é viadagem lítero-psicanalítica?), é que me perdi no texto. Ah, sim, a verdade é que, faz um tempo, quero fracassar. Não aguento mais o barulho de concreto furado martelando a minha cabeça. Tem que dar certo, Tiago, tem que dar. Mesmo que o certo seja fazer bem feito algo que nunca escolhi pra mim? Tem que dar certo, Tiago, tem que dar.
Meus caminhos já estão despedaçando com esse bate-estaca. Por que tem que dar? Por que é preciso ser bem-sucedido em tudo, principalmente nas alternativas que pulamos no teste vocacional? E lá vem o tio Valter de Itatiba, leitor pragmático do Ao Caos, com resposta seca. Tiago, você não pode escolher quais oportunidades vão aparecer, mas só pode fazer opção entre as que aparecem e se esforçar para fazer o melhor; sem idealismo boboca, né. Olha, tio Valter, já li muito Durkheim pra acreditar na autodeterminação do sujeito, mas me recuso – ainda –a receber o meu mundo pronto, não “é somente requentar e usar”.
E, neste ponto, quero mesmo fracassar. Talvez seja a única saída. A obrigação (se a criei não sei) de confirmar nos outros a impressão que têm da minha eficiência em qualquer coisa tornou-se tão grande que já quase supera a minha expectativa de fazer algo no qual acredito. Falhar, aqui, é a revolução. O fracasso naquilo que não gostamos é libertador, nos retira a necessidade de sermos bons no que não queremos. Algum dos meus dois leitores sabe dizer quando nos tornamos reféns do gozo do outro (tão reféns que esse gozo parece nosso)? Espero uma luz enquanto minhas ideias ainda tremem ao olhar para as janelas que se abrem.
Oi Ti. Bom, parabéns pelo blog, em primeiro lugar. Comecei a conhecê-lo hoje… e já resolvi dar pitacos, lógico.
De alguma forma, esse foi o tema que eu discuti na terapia essa semana e que mexeu muito comigo. Mas, diferentemente de você, a minha expectativa do “sucesso” aos olhos dos outros já está inserida em mim de tal forma que eu quase comecei a acreditar nela.
Mas por que, afinal, se importar em ser bem sucedida em padrões e parâmetros que eu não criei e nem acredito? Eu juro que estou tentando entender. E se nisso eu obtiver sucesso, quem sabe consiga fracassar em todo o resto. E finalmente ser só quem eu sou.
é necessário um tipo de coragem pra desistir. é justamente a coragem de renegar o lado ‘bem sucedido’ que todos esperam da gente. Casa, emprego carro família. Acredito sinceramente que há mais na vida do q ficar sentado sete horas por dia num lugar fechado com ar condicionado enquanto o tempo passa lá fora. Talvez eu seja um dos seus. Talvez eu ainda não virei o ‘adulto’ que esperam de mim. Talvez eu tb queira fracassar.
Um brinde ao tão sonho fracasso.
Acredito que também o esteja procurando.
Bjo grande, querido.
Entendo perfeitamente pelo que você está passando. E confesso que, intimamente, desejo exatamente a mesma coisa. Beijos