Sou estúpido demais para as coisas simples. Não que eu seja retardado, mas por me preocupar além do que deveria com o complexo, fico, como posso dizer, retardado. A não-capacidade para o trivial soma-se às inquietações pedantes e antevejo tudo o que de pior pode — e vai — acontecer. Quisera meu pessimismo fosse fácil assim, mas não é.
Tá bom. Mais simples.
Gosta de contar um amigo meu de uma sexta-feira na faculdade, quando bêbado das conversas alheias, me pediram um acorde. As minhas mãos, vazias de cavaquinho, foram correndo para tocá-lo no bandejão, onde o havia esquecido num canto meia hora antes. Aliviado, desci as escalas de volta ao bar, e fiquei grave. Sim, porque ao chegar lá, dei pela falta da carteira, a maldita que ficou na bandeja quando minhas mãos se ocuparam de outras notas.
Não é uma distração de bêbado, mas uma dissonante eterna. O mesmo com a mochila que dormia mais no boteco que em casa, as credenciais que voavam e carteiras que, insistentemente, fugiam do bolso. Não é que deveria prestar mais atenção e tomar cuidado: não consigo fazer o mais básico enquanto penso na morte da bezerra. Quando e onde, mas, principalmente, por que nos deixou e que implicações isso terá ou não nos desmamados? Parece hobby, mas é obsessão. Que me fez buscar meu bem tão mal ordenado nas profundezas dos outros. Era lá que poderia trocar minhas 20 mil léguas submarinas com os demais afundados.
Mas fui castigado, que quem quer (quéquéqué) viver só de profundos respira engasgando. Faltava, na verdade, uma desvontade de submergir. Com toda a complexidade me tirando o trivial, carecia o óbvio. Tão simples, não? Agora é ver se esse raso não dá pé até demais ou se é só assim que o barco equilibra.