A idade é uma bosta. Precipita aquela lágrima que, num átimo, lava o corpo inteiro, mas não chega a cair. É só ficar solitário para algum neurônio piscar errado e ligar a viagem de lembranças. Como tem tempo que isso não se refere exclusivamente à infância, é caminho longo. Fosse apenas a minha memória a pilotar, daria para encher os pulmões de paisagem. Quantas coisas geniais, como a liberdade ditava palavras belas, como era ousado ao escrevê-las. Mas há a memória do computador.
O computador é uma bosta. Na tela, fotos antigas algo mais bonito (ou menos acabado, como quiser). Aquele copo de cerveja na mão, eu bebia mais. Ah, mas o texto, o texto também era incrivelmente… juvenil. E por juvenil penso mal escrito, com reflexões forçadas, adjetivado, úmido. Os óculos atuais, com mais graus de astigmatismo, me fazem querer rasgar toda aquela desimportância. Dar delete não é a mesma coisa. As minhas glórias escritas, orgulho de anos, não passam de idiotice.
Mas quem sou eu para me julgar assim? Para analisar, com letra fria, toda a idiotice que me fez sentir profundo por tanto tempo? Para reconhecer todos os exageros estúpidos que me preenchiam de confiança ao questionar e desdenhar de pessoas experientes e racionalmente cegas como eu? Ontem, eu também julgaria mal esse meu julgamento.
O presente é uma bosta.